17 de nov de 2014

O Show Definitivo de Egberto Gismonti



Caros amigos,

Divulgo um texto do pianista e amigo Alexandre Dias.

O tópico fala por si.

Abraços musicais,



Hoje Brasília presenciou um evento extraordinário. Não foi apenas o show do grande músico Egberto Gismonti com a Orquestra à Base de Sopro de Curitiba. Não foi apenas uma retrospectiva especial da carreira de Gismonti, abordando sucessos desde Infância, Sete Anéis, Água e Vinho, Palhaço e Frevo. O que presenciamos hoje foi algo único.


Após iniciar com dois solos de piano inesquecíveis, Egberto nos contou com afetividade e humor sobre sua cidade natal, Carmo (RJ), relembrando sua família, e em especial seu tio Edgard, mestre de banda da cidade, cuja influência é constante em sua vida.

Logo em seguida entrou a Orquestra à Base de Sopro de Curitiba, com 17 integrantes (flautas, flautins, clarinetes, saxofones, trompetes, trombones, fagote, teclado/piano, guitarra, contrabaixo e vibrafone), que interpretou um arranjo virtuosístico de Carlos Malta para a música “Tá boa santa?” com um nível de preparo similar à mítica Orquestra Pessoal da Velha Guarda, comandada por Pixinguinha na década de 1940. Este foi o tom de toda a noite: todos os músicos tocaram com uma energia e concentração inimagináveis, com cada nota na ponta da língua, desde os flautins aos trombones.

Egberto comandou o show se alternando entre pianista, compositor, regente, e contador de deliciosas histórias, nos fascinando com sua musicalidade e simpatia. A plateia, que ouvia atentamente e reagia a tudo, era incluída como parte de tudo. Nesta conversa constante, foi citado Manoel de Barros, de maneira não trivial: “O que não serve pra nada, serve pra poesia”.

O resultado desta fusão é uma linguagem poética que oscila constantemente entre o improviso e a música escrita, em arranjos de enorme complexidade. O uso das polirritmias por vezes chegava a níveis incríveis, como na peça “Música de sobrevivência”, que apresenta múltiplos planos temporais simultâneos da história do Brasil, reverberando com nossa miscigenação inquestionável.

Há uma nova teoria na física que, a partir de algumas evidências experimentais, levanta pela primeira vez a possibilidade de haver uma influência recíproca entre o futuro e o passado. Na música de Egberto, a sensação é justamente essa, de que nada se perdeu: a música dos índios, negros e brancos, de todas as épocas está presente, mesmo aquelas que já desapareceram.

Sempre experimentando, sua linguagem musical é inclassificável, fruto de sua imensa sensibilidade e originalidade, que passa por Villa-Lobos até música eletrônica, somadas a uma técnica concertística que faz lembrar o grande compositor russo Nikolai Kapustin.

Sobre a música Sete anéis (um dos pontos mais emocionantes do show), Egberto nos explicou que sua inspiração foi a excepcional pianeira Tia Amélia, que tinha um programa na TV em que interpretava choros com uma liberdade rítmica cativante e um grande sorriso. Ao piano (um excelente Kawai RX-7), demonstrou como seria a música tocada da maneira “certa”, e depois com os ritmos desencontrados da Tia Amélia, e por isso perfeitos.

Foram tocadas músicas que marcaram a vida de muita gente, perfazendo já três gerações, como lembrou Egberto, e a sensação ao final era de imensa realização e satisfação. Como apreciador de música, afirmo que foram as duas horas mais proveitosas de 2014, e o show definitivo de Egberto (até o que venha o próximo).

Abraços,
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